10/05/2024

O papel vital do congelamento de células em pesquisa e medicina: Desafios, Soluções e Tecnologias Envolvidas

O congelamento de células, tecnicamente conhecido como criopreservação, desempenha um papel crucial nas áreas de biologia, biotecnologia e medicina. Essa técnica envolve a conservação de células a temperaturas extremamente baixas, geralmente em nitrogênio líquido a -196 °C, com o objetivo de preservar suas características funcionais e estruturais para uso futuro. A criopreservação é fundamental não apenas para a manutenção de linhagens celulares e amostras biológicas, mas também atua como uma pedra angular em diversas aplicações científicas e médicas (Mazur, 1984; Fahy et al., 1984).

Historicamente, o desenvolvimento da criopreservação remonta a meados do século XX, com os primeiros estudos demonstrando a viabilidade de células após o congelamento e descongelamento (Polge et al., 1949). Desde então, avanços significativos foram alcançados no entendimento e na melhoria das técnicas de congelamento, que agora são amplamente aplicadas desde a pesquisa básica em laboratórios até aplicações clínicas complexas como a medicina regenerativa, a conservação de células-tronco e a terapia celular (Fuller, 2004; Pegg, 2007).

A relevância da criopreservação se manifesta em sua capacidade de pausar o relógio biológico das células e tecidos, permitindo seu armazenamento por períodos prolongados sem perda significativa de funcionalidade ou viabilidade. Esta propriedade é essencial para muitas estratégias terapêuticas modernas, que dependem da disponibilidade e da qualidade das células preservadas (Brockbank e Taylor, 2007). Por exemplo, no campo da medicina regenerativa, células criopreservadas são frequentemente utilizadas para reparar ou substituir tecidos danificados, uma aplicação que demonstra o potencial transformador desta tecnologia (Luyet e Gehenio, 1940).

Além disso, os desafios associados à criopreservação, como a formação de cristais de gelo que podem danificar a estrutura celular durante o congelamento, têm motivado pesquisas contínuas em criobiologia. Estudos recentes focam no desenvolvimento de crioprotetores mais eficazes e em técnicas de congelamento que minimizem os danos celulares, melhorando assim as taxas de recuperação pós-descongelamento (Fahy et al., 1984; Wowk, 2010).

Portanto, a criopreservação não só é uma ferramenta essencial para o avanço científico e médico, mas também uma área de intensa investigação que continua a evoluir, oferecendo novas possibilidades para o futuro da medicina e da biotecnologia. Essa integração de história, ciência e aplicação prática proporciona um campo fértil para estudos adicionais e inovações tecnológicas.




Problemas e Desafios na Criopreservação de Células

A criopreservação de células é uma técnica fundamental na biologia, biotecnologia e medicina, possibilitando o armazenamento de células para uso futuro em pesquisa e terapia. No entanto, esse processo apresenta diversos desafios significativos que podem comprometer a integridade e funcionalidade das células preservadas.



1. Formação de Cristais de Gelo

Um dos principais problemas enfrentados durante a criopreservação é a formação de cristais de gelo, que ocorre quando a água dentro ou ao redor das células congela. Este fenômeno é crítico porque os cristais de gelo podem causar danos físicos diretos às membranas celulares e a outras estruturas vitais, levando à lise celular ou morte celular (Mazur, 1984).

Durante o processo de congelamento, a água intracelular tende a superesfriar antes de congelar, e a formação de gelo normalmente inicia-se fora da célula. À medida que a água extracelular congela, ela se expande e os solutos se tornam mais concentrados no líquido restante não congelado, o que pode causar desidratação celular devido à saída de água das células por osmose, tentando equilibrar os gradientes osmóticos. Se o congelamento prosseguir rapidamente, a água intracelular pode se solidificar abruptamente, formando cristais de gelo dentro das células, o que é muitas vezes letal (Fahy et al., 1984).

Para mitigar esse problema, são utilizados crioprotetores, como o dimetil sulfóxido (DMSO) e o glicerol, que são adicionados às soluções de congelamento para reduzir a formação de gelo e proteger as células durante o congelamento e descongelamento. Estes agentes funcionam diminuindo o ponto de congelamento da solução e aumentando a viscosidade, o que reduz a taxa de formação de gelo e os danos mecânicos às células (Fuller, 2004).



2. Variabilidade nas Taxas de Sobrevivência Celular

Outro desafio significativo na criopreservação é a variabilidade nas taxas de sobrevivência das células após o descongelamento. Este problema pode ser atribuído a várias causas, incluindo a heterogeneidade nas taxas de congelamento e descongelamento entre as amostras, a qualidade e concentração dos crioprotetores usados, e as condições originais das células antes do congelamento (Pegg, 2007).

Diferentes tipos de células podem responder de maneira diversa aos processos de criopreservação, e mesmo células do mesmo tipo podem apresentar variações em sua capacidade de sobreviver ao estresse criogênico, dependendo do estado do ciclo celular, da densidade de cultivo e da fase de crescimento no momento do congelamento (Lovelock & Bishop, 1959). Além disso, o procedimento de descongelamento também é crítico; descongelamentos rápidos são geralmente preferidos para minimizar o tempo durante o qual os cristais de gelo prejudiciais podem se formar e crescer dentro das células (Mazur, 1970).



3. Contaminação por Microrganismos

A contaminação por microrganismos é outro desafio crítico na criopreservação de células. Microrganismos como bactérias, fungos e vírus podem ser inadvertidamente introduzidos durante as etapas de coleta, processamento ou armazenamento das células. A presença de contaminantes não apenas compromete a integridade das células preservadas, mas também pode influenciar negativamente os resultados experimentais ou terapêuticos posteriores. As práticas de assepsia e o uso de meios estéreis e crioprotetores livres de contaminantes são essenciais para minimizar esse risco (Wolkers et al., 2010).

Além disso, o processo de congelamento e descongelamento pode aumentar a susceptibilidade das células a infecções devido a alterações nas membranas celulares que podem facilitar a entrada de patógenos. A seleção de crioprotetores e a otimização dos protocolos de criopreservação são, portanto, vitais para manter a esterilidade e viabilidade celular (Best, 2015).



4. Alterações Genéticas e Funcionais

Um desafio adicional em criopreservação é a possibilidade de ocorrerem alterações genéticas ou funcionais nas células. Mudanças no DNA, expressão gênica e metabolismo celular podem ocorrer como resposta ao estresse induzido pelo congelamento e descongelamento. Estudos têm mostrado que o processo de criopreservação pode levar a alterações epigenéticas que potencialmente afetam a função celular, o que é uma consideração importante, especialmente para células destinadas a aplicações terapêuticas e de regeneração (Karlsson & Toner, 2014).

A estabilidade genômica é crucial para a utilização de células em terapias avançadas, como a medicina regenerativa e terapia celular. Assim, a avaliação da integridade genética e funcional das células após a criopreservação é recomendada para garantir que as células mantenham suas características desejadas após o descongelamento (Li & Ma, 2015).

Soluções Tecnológicas Avançadas na Criopreservação de Células

Para superar os desafios associados à criopreservação de células, a comunidade científica tem desenvolvido e adotado várias soluções tecnológicas avançadas. Essas inovações são projetadas para melhorar a viabilidade e a funcionalidade das células após o descongelamento, contribuindo significativamente para o sucesso em aplicações biomédicas.

1. Crioprotetores Avançados

Tradicionalmente, substâncias como o dimetil sulfóxido (DMSO) e o glicerol são utilizadas como crioprotetores para prevenir danos causados pela formação de gelo durante o congelamento de células. No entanto, a pesquisa recente tem explorado crioprotetores mais eficazes e menos tóxicos, como etilenoglicol e propanodiol, que oferecem vantagens em termos de menor toxicidade celular e melhor eficácia na prevenção da cristalização intracelular (Rall et al., 2008). Esses novos crioprotetores estão sendo estudados não apenas por suas propriedades físicas, mas também pela capacidade de interagir de forma benéfica com as membranas celulares durante o congelamento e descongelamento (Fahy, 2015).



2. Otimização de Protocolos de Congelamento e Descongelamento

A otimização dos protocolos de congelamento e descongelamento é fundamental para maximizar a recuperação e funcionalidade das células após a criopreservação. Equipamentos modernos de controle automatizado de taxa de congelamento são utilizados para padronizar este processo, permitindo ajustes precisos na velocidade de congelamento conforme o tipo celular específico (Mathew et al., 2014). Além disso, técnicas de congelamento vitrificação, que envolvem o congelamento ultra-rápido das células em crioprotetores de alta concentração, sem formação de gelo, têm ganhado popularidade por sua capacidade de minimizar danos celulares (Karlsson & Toner, 2014).

3. Monitoramento e Controle de Qualidade

Para assegurar a qualidade e segurança das células após a criopreservação, métodos avançados como citometria de fluxo e técnicas de biologia molecular são empregados para avaliar a viabilidade celular e a integridade genética. Essas técnicas permitem a análise rápida e precisa de uma grande variedade de parâmetros celulares, incluindo a viabilidade, a funcionalidade, e a possível ocorrência de alterações genéticas ou epigenéticas (Thirumala et al., 2015).

4. Sistemas de Informação e Software de Gerenciamento de Dados

A integração de sistemas de informação avançados e software de gerenciamento de dados também é uma solução crucial na moderna criopreservação. Essas tecnologias facilitam o rastreamento e gerenciamento de amostras criopreservadas, garantindo uma documentação detalhada e a conformidade com regulamentações relevantes. Sistemas como o Freezerworks ou o LabCollector têm sido implementados para melhorar a eficiência operacional e a rastreabilidade das amostras (Brooks et al., 2016).




Equipamentos Essenciais para Criopreservação

A criopreservação de células é um processo complexo que requer equipamentos especializados e insumos específicos para garantir a viabilidade e funcionalidade das células após o descongelamento. Esta seção detalha os equipamentos e insumos essenciais para a criopreservação, focando nas tecnologias mais recentes e eficazes.



1. Freezers de Ultra-baixa Temperatura (ULT):

Os freezers de ultra-baixa temperatura são cruciais para a criopreservação de células, pois proporcionam um ambiente estável e controlado com temperaturas que variam tipicamente entre -80°C e -150°C. Esses dispositivos são essenciais para a fase de pré-congelamento e para armazenamento de longo prazo de amostras biológicas. Modelos avançados de ULT freezers oferecem recursos como recuperação rápida de temperatura após aberturas de porta e sistemas de backup de energia para garantir a integridade das amostras durante falhas de energia (Brodsky, 2010).


2. Tanques de Nitrogênio Líquido:

Para a criopreservação em temperaturas extremamente baixas, os tanques de nitrogênio líquido são utilizados. Estes tanques mantêm as células a aproximadamente -196°C, a temperatura do nitrogênio em estado líquido. O nitrogênio líquido é ideal para a vitrificação, uma técnica que evita a formação de cristais de gelo, preservando melhor a estrutura celular (Fahy, 2015).

3. Sistemas de Congelamento Controlado:

Também conhecidos como "freezers programáveis", esses sistemas permitem o controle preciso das taxas de congelamento, que é crucial para otimizar a sobrevivência celular. A programação permite que os usuários definam curvas de congelamento específicas que ajustam a temperatura gradualmente, minimizando o choque térmico e a formação de gelo intracelular (Karlsson & Toner, 2014).

4. Equipamentos de Biossegurança:

Capelas de fluxo laminar e outras tecnologias de contenção biológica são essenciais para manipular células de maneira segura, evitando contaminação por agentes patogênicos ou contaminação cruzada entre amostras. Estes equipamentos são fundamentais para manter um ambiente estéril durante o processamento das células para criopreservação (Thirumala, 2015).

Insumos Necessários para Criopreservação

1. Meios de Cultura para Recuperação:

Após o descongelamento, é crucial que as células sejam rapidamente reintroduzidas em um meio de cultura adequado que suporte sua recuperação e crescimento. Esses meios são enriquecidos com nutrientes, fatores de crescimento e suplementos que ajudam as células a se reestabelecerem após o estresse criogênico (Li & Ma, 2015).

2. Recipientes Estéreis para Armazenamento:

Vials e criotubos estéreis são usados para armazenar as células durante a criopreservação. Esses recipientes são projetados para serem hermeticamente selados e resistentes a temperaturas ultra-baixas, garantindo que as amostras se mantenham estéreis e protegidas durante o armazenamento (Brooks et al., 2016).

3. Etiquetas Resistentes ao Frio:

O rastreamento de amostras é vital em qualquer laboratório de criopreservação. Etiquetas resistentes ao frio são projetadas para suportar as baixas temperaturas sem perder adesão ou legibilidade, garantindo que todas as amostras possam ser identificadas corretamente e rastreadas ao longo de seu armazenamento (Mathew et al., 2014).

Conclusão

A técnica de congelamento de células é fundamental para o avanço de numerosas áreas científicas e médicas. Os desafios associados à criopreservação são significativos, mas as soluções tecnológicas em desenvolvimento continuam a melhorar a eficácia e a segurança deste processo crucial. O sucesso na criopreservação de células não apenas potencializa a pesquisa científica, mas também facilita a implementação de terapias inovadoras que podem salvar vidas. À medida que as tecnologias evoluem, é crucial que os procedimentos e os equipamentos utilizados na criopreservação acompanhem esses avanços, garantindo a integridade e a viabilidade das células preservadas para futuras gerações de descobertas científicas e tratamentos médicos.

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Referências Bibliográficas



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